
"a único encanto do passado é o de ser passado"
Oscar Wilde
abri a janela do quarto, olhei para a paisagem que em tempos era verde e que agora é apenas nada, fechei os olhos e respirei o ar podre desta cidade velha, então corri para a rua, soltei as correntes e corri loucamente sem olhar para trás, fechei os olhos, e corri como quem foge da morte... esbarrei num homem, e derrubei-o, ao aperceber-me que era um senhor de certa idade, aprecei-me a pedir desculpa, e a perguntar se estava tudo bem...o pobre homem, de cabelo grisalho, levantou-se olhou para mim e disse:
- Vocês novos, passam a vida a correr, e correm para chegar ao mesmo sitio onde eu me encontro, parece que vão a fugir da vida, mas não se dão conta que é a vida que foge de vós. Eu desculpo-te mas apenas se te sentares comigo naquela esplanada, calmamente para um café...
eu fiquei com um ar de muito atrapalhado, a pensar na loucura da situação, mas como de facto corria por nada resolvi aceitar dizendo, com um sorriso cínico:
- Claro, sem problema.
sentamos-nos nas cadeiras vermelhas do café que eu nunca me lembro de ter visto, e rapidamente veio o empregado, com um ar de quem não dormia à dois meses, e perguntou se queríamos, alguma coisa num tom de antipatia arrogante, como se todo o mundo lhe pertencesse.
antes de eu pedir alguma coisa o senhor, pediu um café, e enquanto eu fingia que tudo era normal ele começou a falar.
- parecias muito apressado, quando eu era novo também corria para todo o lado, preocupava-me com o tempo, com o que ia fazer o com o que já tinha feito. hoje ando devagar, e não apenas porque as minhas pernas já não me permitem correr, uma coisa te digo, preocupares-te com o que já passou não vale a pena, pois já pertence ao passado, o ontem já não existe e a única maneira de compor o passado é mudar o presente, porque o futuro também ainda esta por vir, e não te adianta de nada correr para ele, porque ele vem ate ti, limita-te a preparar a sua chegada. Planta uma árvore de frutos, se ela não der frutos, no chores por isso, entende que pelo menos dá sombra para descansares enquanto uma nova árvore que plantarás cresce...
entretanto o empregado, trouxe e o café, e eu ia a comentar o que o velho louco dissera, quando este me interrompe dizendo:
- não digas nada, vai-te embora que eu quero tomar o meu café sozinho...

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