
"A liberdade não consiste só em seguir a sua própria vontade, mas às vezes também em fugir dela." Kobo Abe
Desci a rua calmamente, com a cabeça levantada, enquanto a chuva miúda caia sobre mim, cheguei a para um pouco ainda no cimo da rua para sentir a chuva a cair-me no rosto e olhar o céu cinzento de frente enquanto as gotas furavam os meus olhos e lavavam o sal. Depois continuei a descer aquela rua ocupada de automóveis estacionados lateralmente, era tudo tão pouco familiar, como se nunca ali tivesse passado na minha vida. Parei a meio da rua bem do outro lado a olhar para a tua porta, para a tua janela, a janela daquele quarto onde talvez tu estivesses, as paredes velhas do prédio antigo, a janela com uma luz de fundo como que a chamar por mim, deu-me vontade repentinamente de cantarolar uma qualquer canção em tom de serenata ao luar, na beleza de uma coisa ridícula que só um ser apaixonado seria capaz de achar decente, por momentos sai daquele lugar, para dentro daquele quarto onde tu estavas olhei para ti e senti o teu perfume. Foi nesse momento que abri os olhos e vi a tua silhueta na janela, soube que eras tu, reconheceria a forma do teu corpo com a mínima luz sem qualquer esforço...
A chuva continuava a cair-me pelo rosto e eu parecia uma estátua, ate que passou uma senhora de uma certa idade, com um ar meio atarantado e de guarda chuva na mão e que parou e disse, do nada, " o menino ai à chuva ainda se vai constipar, vá para casa, pensar à chuva não o leva a lado nenhum"
Eu então larguei um sorriso amarelo com ar de quem diz "o que tens a ver com isso"; mas apercebi-me que só via a tua sombra, já nem a ti te via, já não vejo o contorno do teu rosto, os teus olhos, a tua pele... talvez até isso já seja parte da minha imaginação. Hoje quando penso nisso não entendo se permaneço apaixonado por ti ou pela imagem que crie de ti depois de tudo, se és tu que eu quero ou aquela sombra da janela que posso desenhar e colorir da forma que mais me convier.
De facto, isso eu não sei, mas a verdade é que nunca mais passei naquela rua, porque me apercebi que as vezes, ate para seguirmos em frente, é necessário dar uma volta...

