sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

"Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar. "

Alberto Caeiro

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

perdi-me no meu jeito, esquecido de ser, já nem os meus olhos quando olham são capazes de ver, navego como um barco sem leme, por entre a corrente, no meio de gente que se arrasta, a tristeza invadiu-me, o amor fugiu de mim, o canto dos pássaros cessou, ate a chuva deixou de cair, e o lume deixou de dar calor...
sou eu assim um qualquer ser igual a tantos outros, nem mais nem menos que ninguém, perco tempo a pensar no que fui, sem uma certeza daquilo que quero ser, sei o que quero mudar, mas nem me consigo levantar deste chão imundo.
a depressão tomou conta da minha alma, o meu corpo, permanece imóvel.
não quero fugir, e não quero ficar...
quero sair à rua como quem no quer nada do mundo, quero apenas viver no mundo vazio, e preenche-lo de vida à medida que o viver. não quero ser ser o super homem, mas também não quero ser um fingidor, quero ser independente, de tudo... não quero ter coração, este que sempre me atrapalhou e me humanizou, me pregou partidas...
quero o tudo de nada e o nada de tudo...
vou levantar-me erguer-me e seguir...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


"a único encanto do passado é o de ser passado"
Oscar Wilde

abri a janela do quarto, olhei para a paisagem que em tempos era verde e que agora é apenas nada, fechei os olhos e respirei o ar podre desta cidade velha, então corri para a rua, soltei as correntes e corri loucamente sem olhar para trás, fechei os olhos, e corri como quem foge da morte... esbarrei num homem, e derrubei-o, ao aperceber-me que era um senhor de certa idade, aprecei-me a pedir desculpa, e a perguntar se estava tudo bem...o pobre homem, de cabelo grisalho, levantou-se olhou para mim e disse:
- Vocês novos, passam a vida a correr, e correm para chegar ao mesmo sitio onde eu me encontro, parece que vão a fugir da vida, mas não se dão conta que é a vida que foge de vós. Eu desculpo-te mas apenas se te sentares comigo naquela esplanada, calmamente para um café...
eu fiquei com um ar de muito atrapalhado, a pensar na loucura da situação, mas como de facto corria por nada resolvi aceitar dizendo, com um sorriso cínico:
- Claro, sem problema.
sentamos-nos nas cadeiras vermelhas do café que eu nunca me lembro de ter visto, e rapidamente veio o empregado, com um ar de quem não dormia à dois meses, e perguntou se queríamos, alguma coisa num tom de antipatia arrogante, como se todo o mundo lhe pertencesse.
antes de eu pedir alguma coisa o senhor, pediu um café, e enquanto eu fingia que tudo era normal ele começou a falar.
- parecias muito apressado, quando eu era novo também corria para todo o lado, preocupava-me com o tempo, com o que ia fazer o com o que já tinha feito. hoje ando devagar, e não apenas porque as minhas pernas já não me permitem correr, uma coisa te digo, preocupares-te com o que já passou não vale a pena, pois já pertence ao passado, o ontem já não existe e a única maneira de compor o passado é mudar o presente, porque o futuro também ainda esta por vir, e não te adianta de nada correr para ele, porque ele vem ate ti, limita-te a preparar a sua chegada. Planta uma árvore de frutos, se ela não der frutos, no chores por isso, entende que pelo menos dá sombra para descansares enquanto uma nova árvore que plantarás cresce...
entretanto o empregado, trouxe e o café, e eu ia a comentar o que o velho louco dissera, quando este me interrompe dizendo:
- não digas nada, vai-te embora que eu quero tomar o meu café sozinho...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012


"O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela" bernardo soares

a verdade é que não tenho medo da morte, já tive em tempos, mas as vezes ela mesma parece-me tão boa companhia, para manter ao longe é certo, mas entendo-a como boa pessoa...
já me vi morrer tantas vezes, ao ponto de me ver viver sempre uma vez a mais daquelas que morri, assim apesar de tudo, não posso deixar de pensar, no dia em que as contas se acertarem será justo.
digo isto, pensando que neste turbilhão de encruzilhadas que é a vida, já me vi perdido par me ver achado, para eventualmente me voltar a perder. Ao longo de todo este caminho já vivido, e que certamente não é muito, já pensei para mim mesmo inúmeras vezes que tudo estaria perdido, e vem a velha ideia "e agora o que é que eu faço" e o que é que eu faço?... a maior parte das vezes fiquei parado a olhar para a desgraça, a lamentar-me e a espera, arrastando-me como um moribundo, esperando a morte...mas sinceramente se ela não vier mais vale que eu me mate, pelo menos ficarei logo a saber se há ou não outra vida...
"Pandora abriu diante dele a tampa do presente a humanidade que até aquele momento habitava um mundo sem doenças ou sofrimentos viu-se assaltada por inúmeros malefícios que atormentam os homens até aos dias de hoje. Pandora tornou a fechar a caixa rapidamente antes que o único benefício que havia nela escapasse: a esperança"
A esperança, como beneficio, que Pandora tirou ao mundo... em verdade muitas vezes penso a esperança como, uma catástrofe do mundo, aquele que vive na esperança de uma cura para os males, acaba por não alcançar uma nova vida, pois limita-se a esperar que a antiga volte ao que era. também eu já fui afectado pelo mal da esperança, mas percebi que não é aquele que espera que alcança...
o que esta perdido já foi e afinal mais vale viver como se fosse morrer, a viver como se já estivesse morto.