
É estranho o mundo em que me vejo a viver, olho a minha volta e tudo o que vejo é gente parada, alguns com uma força tremenda e ainda assim com uma quietude mórbida de quem nada vai fazer. E eu, bem eu as vezes deixo-me levar nesta corrente que me arrasta. Nem sempre me sinto com forças para nadar.
Sou um ser petrificado, como uma gargula a espera que a noite caia para acordar, e fico a olhar para aquela luz em que um dia vivi, com saudades do tempo que já la vai. É certo que tenho agora que aprender a viver na escuridão da noite, mas um dia voltarei a sentir o sol a queimar-me a cara, e nadarei fortemente contra esta corrente nocturna e turbulenta em que me arrasto.
No entanto, e enquanto esse dia não chega, por vezes, encosto-me a algumas ilhas no meio do rio, para descansar, aproveito para repor energias, e vejo tolos como eu que se arrastam nas águas e se deixam levar. Será que também eles têm consciência que estão a ser arrastados? Na verdade parecem tão felizes, chego a pensar que foram sempre gargulas, que nunca viram o sol...
A ser assim poderia dizer-se que a ignorância é felicidade, mas na verdade e contrariando essa ideia, julgo que aquele que ignora que o sol existe, não é feliz, apenas se limita a viver arrastado sem conhecer realmente o sol que brilha na margem deste triste rio.

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